terça-feira, 13 de setembro de 2011


  O vencedor

Era a primeira competição do ano para a nossa recentemente formada equipe de natação da escola. A atmosfera era de excitação durante a viagem de três horas de ônibus, com o grupo de jovens não pensando em nada além da vitória. Entretanto, o entusiasmo transformou-se em choque quando nossos peixinhos desembarcaram e viram seus musculosos oponentes, um verdadeiro grupo de deuses gregos.

O treinador verificou a programação.
- Seguramente está havendo um erro, ele pensou.
Mas a programação apenas confirmou, sim, era o lugar certo e a hora certa.

As duas equipes formaram uma linha ao lado da piscina. Apitos sopraram, disputas foram iniciadas e disputas foram perdidas. Pelo meio da competição, o treinador percebeu que não tinha nenhum competidor à altura do evento.
- Muito bem equipe, quem quer disputar a próxima prova? O treinador perguntou meio desanimado.

Várias mãos se levantaram, incluindo as de Justin Rigsbee,
- Eu nadarei, treinador!
O treinador fitou o jovem e disse,
- Justin, nesta prova você tem que atravessar a piscina vinte vezes. Até hoje eu só o vi atravessar oito vezes.
- Mas eu posso fazê-lo, treinador. Deixe-me tentar. O que são doze vezes mais?

O treinador, embora relutante, cedeu,
- Afinal de contas, ele pensou, não é o ganhar mas o tentar que constrói o caráter.

O apito soprou e os nadadores torpedearam pela água e terminaram a prova em quatro minutos e cinqüenta segundos. Os vencedores reuniam-se para receber as medalhas enquanto nosso grupo lutava para terminar a prova. Depois de mais quatro longos minutos, os últimos membros, exaustos, saíram da água. Todos, exceto Justin.

Justin tentava ter fôlego, com as suas mãos dando tapas contra a água e empurrando seu delgado corpo mais para o lado do que para adiante. Parecia que afundaria à qualquer instante, mas algo parecia manter empurrando-o.
- Por quê o treinador não para esta criança? Alguns pais cochicharam entre si.
- Parece que vai se afogar e a prova foi vencida há quatro minutos.
Mas o que aqueles pais não sabiam era que a prova real, a prova do menino tornando-se um homem, apenas começava.

O treinador andou pela borda até o jovem nadador, ajoelhou-se e falou calmamente com o nadador.
Os pais, aliviados, pensaram,
- Ele finalmente puxará aquele menino para fora antes que ele se mate.

Mas, para surpresa geral, o treinador batia forte os pés na borda da piscina e o rapaz continuou a nadar.
Um colega de equipe, inspirado por seu amigo corajoso, foi até o lado da piscina e incentivou,
- Vai Justin, você pode! Você consegue! Força! Não desista!

Logo outro se juntou, então outro, até que a equipe inteira andava pela borda da piscina encorajando seu companheiro a terminar a prova.

A equipe adversária, vendo o que acontecia, uniu-se ao grupo. O coro contagiou todo o lugar e logo os pais, que antes estavam preocupados, começaram a bater os pés, gritando e torcendo. O lugar pulsava com a energia e a animação dos atletas que incentivavam o pequeno nadador.

Doze longos minutos depois do vencedor da prova, um exausto mas sorridente Justin Rigsbee saía da piscina. A multidão tinha aplaudido o nadador que vencera a prova.

Mas a ovação que deram para Justin naquele dia foi a prova de que a vitória maior fora a sua, apenas por terminar a disputa.

   Tesouro oculto

...O guarda que estava revistando o alquimista encontrou um pequeno frasco de cristal cheio de líquido e um ovo de vidro amarelado, pouco maior que o ovo de uma galinha.
- Que são estas coisas? Perguntou o guarda.

- É a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. É a Grande Obra dos alquimistas. Quem tomar este elixir jamais ficará doente, e uma lasca desta pedra transforma qualquer metal em ouro.

Os guardas riram pra valer, e o Alquimista riu com eles. Tinham achado a resposta muito engraçada, e os deixaram partir sem maiores contratempos, com todos os seus pertences.

- Você está louco? - perguntou o rapaz ao alquimista, quando já haviam se distanciado bastante. - Para que você fez isto?

- Pra mostrar a você uma simples lei do mundo - respondeu o alquimista. - Quando temos os grandes tesouros diante de nós, nunca percebemos. E sabe por quê? Porque os homens não acreditam em tesouros.

Isto é o que os amigos fazem

Jack jogou os papéis sobre minha mesa - suas sobrancelhas traçavam uma linha reta.
- O que há de errado? Perguntei.

Enfiando um dedo na proposta, ele disse,
- Na próxima vez que você quiser mudar alguma coisa, pergunte-me primeiro.

E virou as costas se afastando de mim, me deixando ardendo de raiva.
- Como ousa tratar-me deste jeito, eu pensei.

Eu tinha alterado uma frase e corrigido a gramática, algo que eu pensava que era paga para fazer.

E eu já tinha sido avisada. Outras mulheres que tinham trabalhado no meu lugar antes de mim deram nomes a Jack que eu não posso repetir. Um colega me falou no meu primeiro dia,
- Ele é pessoalmente responsável por duas secretárias terem saído da firma.

Enquanto as semanas passavam, crescia o desprezo de Jack. Suas ações faziam com que eu me questionasse sobre acreditar em "dar a outra face" e "amar seu inimigo". Jack sempre disparava uma insulta à qualquer face que se virasse em sua direção. Orei pela situação, mas para ser honesta, quis colocar Jack em seu lugar, eu não o amava.

Um dia, depois que outro destes episódios me deixou em lágrimas, entrei de assalto em seu escritório, preparada para perder meu emprego se necessário, mas não antes de eu fazer o homem saber como me sentia. Abri a porta e Jack deu uma olhada por cima.
- O que foi? Ele perguntou bruscamente.

Eu sabia o que eu tinha que fazer. Afinal de contas, ele o mereceu.

Sentei-me do outro lado dele e disse tranqüilamente,
- Jack, o jeito que você tem me tratado está errado. Ninguém jamais falou comigo deste jeito. Como profissional, está errado, e eu não posso permitir que continue.

Jack riu nervosamente e jogou as costas contra a cadeira. Fechei meus olhos brevemente, pedindo à Deus que me ajudasse.
- Quero lhe fazer uma promessa. Serei um amigo. Ele disse. Eu lhe tratarei como você merece ser tratada, com respeito e bondade. Merece isso. Todo mundo merece.

Escorreguei para fora da cadeira e fechei a porta atrás de mim.

Jack evitou-me o resto da semana. As propostas, especificações e cartas apareciam em minha mesa enquanto eu estava no almoço e minhas versões corrigidas não foram vistas novamente. Eu trouxe biscoitos ao escritório um dia e deixei um pacote em sua mesa. Outro dia eu deixei um bilhete: "Espero que tenha um grande dia".

Poucos dias depois, Jack reapareceu. Estava reservado, mas não houve outro episódio. Meus colegas de trabalho encurralaram-me na hora do café,
- Acho que você conquistou o Jack, disseram. - Deve ter lhe contado algo de muito bom.

Sacudi minha cabeça.
- Jack e eu tornamo-nos amigos, eu disse. E passei a recusar conversar sobre ele. Cada vez que eu via Jack no corredor, eu sorria para ele. Afinal de contas, é isso o que amigos fazem.

Um ano depois de nossa "conversa", descobri que tinha câncer de mama. Eu tinha trinta e dois anos, era mãe de três crianças jovens e lindas, e estava assustada. As estatísticas não davam boa perspectiva de sobrevivência. Depois de minha cirurgia, amigos e amados me visitaram e tentaram achar as palavras certas. Ninguém sabia o que dizer, e muitos disseram as coisas erradas. Outros choraram, e tentei encorajá-los. Agarrei-me em minha própria esperança.

Um dia, Jack apareceu na entrada do meu pequeno e escuro quarto do hospital. Eu acenei para ele com um sorriso. Ele andou até minha cama e sem nenhuma palavra colocou um embrulho ao meu lado. Dentro do embrulho repousavam vários bulbos.
- Tulipas, ele disse.

Eu dei um sorriso, sem entender.

Ele embaralhou os pés, limpou a garganta e disse,
- Se você os plantar quando voltar para casa, elas nascerão na primavera. E quero que você saiba que eu penso estar lá para vê-los quando brotarem.

Lágrimas cobriram meus olhos.
- Obrigado, cochichei.

Jack segurou a minha mão e respondeu,
- Por nada. Você não pode ver agora, mas na primavera você verá as cores que eu escolhi para você. Acho que você gostará. Virou-se e saiu sem outra palavra.

Há dez anos, eu vejo as tulipas vermelhas com manchas brancas brotando da terra em cada primavera.

Num momento em que eu apenas orava pelas palavras certas, um homem de poucas palavras disse todas as coisas certas.

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