domingo, 25 de setembro de 2011


Na relação a dois
Enquanto muitos apregoam o fim das relações familiares e observa-se uma diminuição do afeto em tantos casais, encontra-se, em contrapartida, exemplos que tocam fundo a alma.

Contou-nos uma senhora que há alguns meses, em exames de rotina, foi-lhe constatado um início de diabetes. O exame estava ali, mostrando a alta taxa de glicose. Sua primeira reação foi vestir-se de tristeza. Pensou que bem podia diminuir ou até eliminar os farináceos, os tubérculos, o arroz. Mas, os doces... Como poderia ficar sem eles?

Ela já tivera anteriormente outros problemas de saúde, bastante sérios. Mas para se recuperar impusera-se um rigoroso ritmo de vida. Abrira mão de tantas coisas, pensava. Mas agora, teria que se privar também dos doces. Doces que ela adorava fazer e saborear.

Com que prazer criava novas receitas e oferecia pratos saborosos à família e aos amigos. Contou ao marido e ficou imaginando como poderia iniciar a nova dieta. E quando o faria. Naturalmente, o médico a iria orientar melhor e dizer-lhe exatamente como proceder dali em diante.

O retorno ao equilíbrio orgânico exigia que a decisão fosse imediata. Entretanto, ela aguardou alguns dias. Dias que passaram lentos. Finalmente, decidiu refazer todos os exames. Outro médico. Outro laboratório. Nova coleta de material. Dias depois, o marido foi apanhar os resultados no laboratório. Retornou ao lar e, mal estacionou o carro, entrou em casa chamando as filhas, a esposa, todos.

Na mão direita, um envelope que sacudia sem parar. Ante o suspense que se fez, ele abriu o envelope e disse, eufórico: “Este exame diz que você, meu bem, está com a dosagem glicêmica absolutamente normal. Deve ter ocorrido um engano anteriormente. Não importa. O que importa mesmo é que você poderá continuar a comer doces. E nós vamos comemorar. Porque agora eu posso voltar a ficar feliz, sabendo que você não precisará se submeter a mais essa dieta, privando-se de algo que você gosta tanto.”

Abraçou a esposa, as filhas, entre a emoção e a inesperada alegria. Isto se chama amor. Alguém que se importa tanto com o outro, que se alegra quando descobre que aquele não necessitará de mais um sacrifício para prosseguir a viver. Alegra-se com a alegria dele. Entristece-se com a sua problemática.

Benditos os casais que levam a vida assim, mesmo depois de muitos anos de convívio, e ainda que os olhos já não guardem o mesmo brilho dos tempos do namoro. Casais que compartilham tudo. A dor, a alegria, o desconforto. Que se apóiam mutuamente nos dias de necessidades. Pense nisso.

Enquanto sigas a dois, lembra-te de usar a ternura, vez ou outra. Lembra ao cônjuge que o amor ainda prossegue fazendo vibrar o teu coração. Encontra palavras de carinho para enfeitar o dia de quem segue ao seu lado na vida.

Recorda enfim, que a relação conjugal é uma oportunidade de progresso e redenção e que não foi o acaso que os reuniu. E não se canse de utilizar a frase sempre aguardada dos lábios de quem ama: “Amo você!”

O Amanhã pode esperar
Quando eu era criança, ouvia falar muito de um tal Zé Carrasco, soldado temido da pequena Cadeia Pública do local onde morávamos, na época. É que o Zé Carrasco pegava os presos, mandava que outros dois guardas os segurassem com os braços para trás e desferia violentos golpes na boca do estômago dos encarcerados ou dos que lá chegavam, por apenas uma briga ou uma bebedeira.
Na verdade ele nem queria saber o motivo. O negócio dele era esmurrar à revelia, desde que as vítimas estivessem impossibilitadas de reagir ou de se defender. Soube recentemente que o tal Zé Carrasco morreu de forma lenta e dolorosa com câncer no estômago. Seria a tal lei do retorno?
Mas esta pequena história é apenas para narrar algo que acontece com a gente ( comigo e com você) na vida real. Quer ver quantas vezes aparece um tal Zé Carrasco no seu dia-a-dia? Suponha que você esteja apertadíssimo financeiramente e coloca o seu imóvel à venda: o Zé Carrasco sonda daqui, sonda dali, fareja o cheiro da sua precária situação financeira e então aparece com uma proposta indecente para o seu imóvel, após ter esparramado para a cidade inteira que a casa está cheia de problemas e que será péssimo negócio para quem a comprar (menos para ele, é claro).

Suponha que você andou passando uma situação traumática, tipo perda de um ente querido, ou uma separação, ou filhos dando trabalho... de repente seu cérebro fica lento e confuso e você não consegue exercer seu ofício com a costumeira destreza.
Nossa! Aparecerão dezenas de Zé Carrascos, prontinhos para lhe passar uma rasteira e tomar o seu cargo, enquanto você tenta se refazer do seu trauma e da sua momentânea fragilidade, no afastamento que o médico lhe recomendou.

Você já ouviu falar daquele caso onde pessoas disputavam uma vaga importante e uma pessoa com todos os requisitos para tal vaga foi preterida, porque uma outra pessoa (sem preparo algum) tinha um tio Zé Carrasco importante lá no alto escalão que se encarregou de mandar os outros concorrentes para o espaço?

Tem também o Zé Carrasco-pega-carona. Este cara, por alguma razão tem uma bronca enorme de você mas não tem coragem de enfrentá-lo, muito menos de dizer na sua cara o quanto ele o odeia (ou o inveja, vai saber). Então o que faz o Zé Carrasco? Ele pega carona numa briga que só diz respeito a você e à outra parte e, sem ao menos inteirar-se a fundo do que está acontecendo, junta-se ao seu inimigo e aproveita a situação para despejar ( usando o outro) toda a fúria que ele mesmo não tem coragem de expor a você, por covardia.

Olha que a vida está cheia de Zé Carrascos astuciosos e covardes por toda parte. É Zé Carrasco quem oferta sub-emprego alegando a crise, mas desfila num carrão importado. É Zé Carrasco a madame que exclui da sua festa uma mulher bonita pelo fato de ela ser separada. É Zé Carrasco o editor ou produtor que ganha dinheiro em cima do ideal criativo de alguém que não tem condição de bancar a própria arte. É Zé Carrasco quem, imbuído de um mísero poder qualquer, abusa dele com assédio moral ou outros abusos.
É Zé Carrasco quem sistematicamente serra o seu banquinho e se puder lhe fecha todas as portas para que você não faça sombra. É Zé Carrasco quem desdenha para comprar mais barato. É Zé Carrasco quem bota filhos no mundo e depois some para esquivar-se da pensão alimentícia. É Zé Carrasco quem jamais lhe devolve um elogio ou retribui uma bondade, mas tem a lista de todos os seus defeitos na ponta da língua e manda ver, sempre que tem oportunidade para tal.
É Zé Carrasco qualquer pseudo-religioso que faz uma doce promessa de paz, amor e salvação na hora da sua crise e depois mostra as garras obrigando-o a pagar um oneroso "dízimo" pelos serviços prestados. É Zé Carrasco quem não tem coragem de enfrentá-lo e usa uma terceira pessoa para fazer o serviço. É Zé Carrasco aquele seu omisso amigo(a) que bem poderia ter-lhe dado uma forcinha quando você precisou, mas lavou as mãos feito Pilatos.
É Zé Carrasco quem faz conluios, quem distorce as suas palavras, quem o difama mesmo sabendo que você não deve e está inocente porque, de uma forma ou de outra, você constituiu-se num paradigma que ele, por não saber resolver, preferiu banir.
É Zé Carrasco quem dissemina uma confidência feita em momento de aflição e o joga na cova dos leões...e por aí vai.

Eles esperam o momento da sua fragilidade e ao perceberem que você está de mãos atadas, vão socar seu estômago sem piedade!Como sobreviver a isto? Aguarde... chegará uma hora que suas mãos estarão livres e você poderá ao menos se defender. Dependendo do seu temperamento, você poderá também socá-lo quando ele estiver com os braços presos. Se você for do tipo boa índole por natureza, tentará dar-lhe uns conselhos ou quem sabe tentar regenerá-lo, mas não bobeie. Pau que nasce torto morre torto.
Como já dizia a canção da Alcione, "temos que encarar um desacato e se não podemos ver no ato, o amanhã pode esperar!"

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