terça-feira, 13 de setembro de 2011


Aquela casa velha

- E lá vamos nós para uma viagem dominical! Eu disse. Uma frase que me trouxe um monte de lembranças.

Quando eu era criança, meu pai pegava eu e minha mãe e saíamos para uma "viagem dominical". Nunca sabíamos onde íamos parar, mas de alguma forma sempre parecia familiar.

Eu e minha esposa saímos em nossa aventura logo depois do almoço. A princípio as estradas eram todas por demais familiares. Viajei por elas, a trabalho, centenas de vezes.
- Preciso de alguma aventura! Eu disse.
- Ali, tenho que descer aquela estrada! Gritei.
- Por quê? Minha esposa perguntou.
- Está chamando meu nome! Declarei.

E estava mesmo. Esta estrada. Este caminho para algum lugar... Parecia um mapa de minha vida. As bifurcações, as curvas e pontos sem saída se comparam aos 53 anos que eu gastei até aqui em busca de meu destino.

Então comecei a ver velhas casas abandonadas. Casas de fazenda e granjas abandonadas durante a depressão e que ainda pontilham a campina.
- Vamos parar! Eu disse.
- Onde? Ela perguntou.
- Preciso ir ver aquela belíssima casa!
- Aquela casa velha? Ela perguntou.
- Sim. Quero tocar as pessoas que viveram aí. Eu disse.

Outra volta à minha infância. Eu adorava encontrar velhas construções abandonadas e rebuscar o passado. Quando criança, me lembro de sentir algo, uma força poderosa, uma conexão imediata com o passado sempre que eu segurava algo velho em minhas mãos.

Tocar a madeira lascada e apodrecida num peitoril da janela enquanto olhava pelo vidro quebrado desta casa deu-me um sentido das pessoas que viveram ali.

No canto, uma cadeira quebrada. O papel de parede descascado despencando. O sol irradiava para baixo por entre buracos do teto e criava círculos de luz no chão expondo as pranchas nuas que formaram o lugar.

Como não havia nenhum trânsito na estrada, o vento podia ser ouvido passando apressado pelos restos do passado.

Foi quando caí em mim.

Este é o trajeto que fiz ao longo de minha vida, a estrada na qual eu viajei está forrada com coisas que tenho deixado para trás. Sonhos abandonados, planos realizados e sim, pessoas que eu conheci, tudo é um reflexo de quem eu sou hoje.

Pergunto-me agora se alguém parasse ao lado da minha estrada da vida, eles veriam os restos de um homem feliz? Contariam às pessoas que me conheceram e passariam a sensação de que eu fui justo, amável, bondoso, compassivo? Ou teriam muitos contos de fracasso, dores e decepção?

Ei, mas a estrada não segue adiante? Tendo viajado até aqui quer dizer que posso estar ainda no meio do caminho ou perto do fim. Talvez esta viagem dominical sirva para me despertar.
A estrada adiante está cheia de curvas. Eu não posso ver todos os cantos. Mas posso ver que o caminho está aqui sob os meus pés. E a partir daqui posso fazer a diferença. É agora que posso tocar a vida daqueles com quem encontro de tal forma que tenham palavras bondosas para falarem de mim.

Então, quando minha viagem terminar, ninguém olhará em minha vida e dirá, "Aquela casa velha?"

  O morro  

- Não consigo subir nesse morro - disse o menininho. - É impossível. O que vai me acontecer? Vou passar a vida inteira aqui no pé do morro. É terrível demais!

- Que pena! - disse a irmã. - Mas olhe, maninho! Descobri uma brincadeira ótima! Dê um passo e veja se consegue deixar uma pegada bem nítida na terra. Olhe só para a minha! Agora, veja se você consegue fazer uma tão boa assim!

O menininho deu um passo:
- A minha está igual!
- Você acha? - disse a irmã. - Olhe a minha, de novo, aqui! Eu faço mais forte que você, porque sou mais pesada e por isso a pegada fica mais funda. Tente de novo.

- Agora a minha está tão funda quanto a sua! - gritou o menininho. - Olhe! Esta, esta e esta, estão mais fundas!

- É, está muito bom mesmo - disse a irmã - , mas agora é minha vez, deixe eu tentar de novo e vamos ver!

Eles continuaram, passo a passo, comparando as pegadas e rindo da nuvem de poeira cinzenta que lhes subia por entre os dedos descalços.

- Ei, - disse o menininho - nós estamos no alto do morro!

- Nossa! - disse a irmã. - Estamos mesmo...!

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