quarta-feira, 14 de setembro de 2011

     As Sementes da Laranja 
Se fosse possível contarmos a uma semente de laranja que nela existe a própria laranjeira, talvez ela duvidasse ou não aceitasse.

Duas sementes vizinhas numa mesma laranja começaram uma conversa: - Sabe, amiga, às vezes minha vida parece tão boba! Sinto tantas coisas dentro de mim, querendo sair, explodir do meu peito... mas não sei o que é. Você já teve esta sensação?

- Por que isto, agora? Você já parou pra pensar que deve existir um sentido em nossas vidas? O que quer dizer?
- Que deve existir uma finalidade para estarmos aqui. Que deve haver vida lá fora. Outras cores, outros aromas.  Você acha que vamos passar nossa vida inteira dentro desta laranja?

Não sei. Não me importo. E se nossas vidas tiverem uma finalidade maior?  E se houver um universo fora da laranja, com outras criaturas inteligentes, não seria fascinante?

- Para mim não interessa. Quando a laranja não existir mais, eu também não existirei. -Não! Não pode ser! Eu não acredito que nossa vida de sementes vai acabar em nada.  Algum dia, uma grande mudança acontece, e vamos viver de outro jeito. Deus não colocaria sonhos dentro de nós, se não pudéssemos realizar.
- Sonhos? Que sonhos?

Tenho um sonho que se repete, de tempos em tempos. Nele, eu me transformei numa grande árvore cheia de laranjas.  E se este for nosso destino: tornarmo-nos árvores, algum dia.  Árvores?! Ah, ah!... Veja o seu tamanho, minha filha. Onde é que tem uma árvore aí, dentro de você? Cadê o tronco, cadê as folhas?Dentro da mim... Neste meu desejo de conhecer novas realidades.

Quero ter folhas, flores perfumadas e frutos suculentos. Quero muito. Sinto mesmo que foi para isto que nasci. OK. Vamos dar tempo ao tempo e você verá quem de nós está com a razão.



Aproveite bem o seu dia
Aí um dia você toma um avião para Paris, a lazer ou a trabalho, em um vôo da Air France, em que a comida e a bebida têm a obrigação de oferecer a melhor experiência gastronômica de bordo do mundo, e o avião mergulha para a morte no meio do Oceano Atlântico.

Sem que você perceba, ou possa fazer qualquer coisa a respeito, sua vida acabou. Numa bola de fogo ou nos 4 000 metros de água congelante abaixo de você naquele mar sem fim. Você que tinha acabado de conseguir dormir na poltrona ou de colocar os fones de ouvido para assistir ao primeiro filme da noite ou de saborear uma segunda taça de vinho tinto com o cobertorzinho do avião sobre os joelhos. Talvez você tenha tido tempo de ter a consciência do fim, de que tudo terminava ali. Talvez você nem tenha tido a chance de se dar conta disso. Fim.

Tudo que ia pela sua cabeça desaparece do mundo sem deixar vestígios. Como se jamais tivesse existido. Seus planos de trocar de emprego ou de expandir os negócios. Seu amor imenso pelos filhos e sua tremenda incapacidade de expressar esse amor. Seu medo da velhice, suas preocupações em relação à aposentadoria. Sua insegurança em relação ao seu real talento, às chances de sobrevivência de suas competências nesse mundo que troca de regras a cada seis meses. Seu receio de que sua mulher, de cuja afeição você depende mais do que imagina, um dia lhe deixe.

Ou pior: que permaneça com você infeliz, tendo deixado de amá-lo. Seus sonhos de trocar de casa, sua torcida para que seu time faça uma boa temporada, o tesão que você sente pela ascensorista com ar triste. Suas noites de insônia, essa sinusite que você está desenvolvendo, suas saudades do cigarro. Os planos de voltar à academia, a grande contabilidade (nem sempre com saldo positivo) dos amores e dos ódios que você angariou e destilou pela vida, as dezenas de pequenos problemas cotidianos que você tinha anotado na agenda para resolver assim que tivesse tempo.

Bastou um segundo para que tudo isso fosse desligado. Para que todo esse universo pessoal que tantas vezes lhe pesou toneladas tenha se apagado. Como uma lâmpada que acaba e não volta a acender mais. Fim

Então, aproveite bem o seu dia. Extraia dele todos os bons sentimentos possíveis. Não deixe nada para depois. Diga o que tem para dizer. Demonstre. Seja você mesmo. Não guarde lixo dentro de casa. Não cultive amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso.

Dê risada de tudo, de si mesmo. Não adie alegrias nem contentamentos nem sabores bons. Seja feliz. Hoje. Amanhã é uma ilusão. Ontem é uma lembrança. No fundo, só existe o hoje.

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